‘É preciso exorcizarmos alguns fantasmas que acreditávamos ter vencido há tempo’
Idemar Antonio Martini – Presidente da FETIESC
Toda data comemorativa, só assim é tratada, por integrar no seu bojo um valor simbólico que é capaz de agregar diferentes categorias, gêneros e cidadanias em prol de um mesmo sentido. Se na realidade contemporânea não é bem assim que acontece, penso que nós, trabalhadores e trabalhadoras, deveríamos considerar essa simbologia histórica, antes mesmo de fazermos a programação isolada do nosso próximo feriado de 1⁰ de maio.
Parece-me que de um tempo pra cá a própria classe trabalhadora, de certa forma ameaçada, manipulada e incentivada pelos donos do capital, recebe esse feriado como mais uma benesse e se utilizam desta data para retroalimentar o sistema capitalista por meio do consumo exacerbado.
Dicotomicamente, o valor simbólico do dia do trabalho transformou-se em capital: consumir, consumir e consumir! Afinal, é assim mesmo que o mundo atual funciona: é preciso ter e aparecer que tem (até mesmo aquilo que não se tem) para que o cidadão se sinta como gente, participante deste mundo cada vez mais ‘líquido’.
Talvez sem sequer se dar conta, os próprios trabalhadores entregaram-se obedientemente ao capital e jogaram ao léu os antigos ideais da categoria, que fizeram surgir este 1⁰ de maio: a luta pelos direitos da classe trabalhadora.
Hoje poucos são os brasileiros que se indignam e se mantêm na luta pela reestruturação dos direitos trabalhistas suprimidos nos últimos anos; e há, inclusive, trabalhadores que defendem, disseminam e sustentam todas essas forças políticas neoliberais que massacraram a nossa história e a memória dos nossos antecessores os quais entregaram a própria vida na luta para que tivéssemos o que até pouco tempo tínhamos por garantia.
Também poucos são os trabalhadores que se mantêm irmanados e fortalecidos nas organizações sindicais. Poucos são os que se levantam contra o poder hegemônico dos detentores de poder e de capital que, por meio de uma globalização desenfreada e desumana, fazem com que os pobres, inclusive os trabalhadores, sejam cada vez mais pobres e enfraquecidos pela força opressora do domínio da economia sobre todos os demais elementos constitutivos da sociedade hodierna.
Por tudo isso é que hoje defendo a ideia de que neste Dia Internacional do Trabalhador e da Trabalhadora, é preciso exorcizarmos alguns fantasmas que acreditávamos ter vencido há tempo.
Detenho-me a três deles! Primeiro deles: o trabalhador deve se contrapor a essa tal reestruturação produtiva que, dentre seus efeitos perversos, está promovendo o enxugamento dos postos de trabalho e o consequente aumento do número de trabalhadores desempregados e/ou submetidos a situações precárias de trabalho.
Segundo: o trabalhador deve ter a coragem de fundar uma nova ordem humana, iniciando pela reivindicação de uma nova legislação trabalhista, calcada no respeito aos direitos do trabalhador, com a garantia de salários dignos e melhores condições de vida para todos. Ademais é premente criarmos uma sociedade em que o imperativo maior não seja apenas produzir e gerar lucros; mas, de modo especial, que possamos distribuir as riquezas, de modo que um dia a classe trabalhadora possa ser a protagonista das transformações sociais que diminuam as desigualdades e elevem a humanidade a um patamar em que se possa alcançar o bem-estar e a felicidade de toda vida humana.
Por fim, e talvez o principal fantasma que assombra nossa categoria trabalhadora: é preciso termos a coragem para nos unirmos e construirmos as bases e as causas sindicais e trabalhistas, tendo o trabalhador como o maior amigo do trabalhador e não mais ao contrário, sendo que hoje alguns se portam como defensores cegos dos seus próprios algozes, tomados pelos ideais neoliberais.
Neste contexto, desejando que esse 1⁰ de maio clareie as consciências e encoraje a transformação real e profunda da classe trabalhadora, encerro citando a frase de Marx, o qual certa vez asseverou que “A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. Ou seja: mais do que nunca a nossa organização é a alternativa mais eficaz para que possamos lutar e garantir os nossos direitos e construirmos uma via mais segura que nos leve a caminhar, juntos, rumo à autonomia e à liberdade.





