Jornalista Amanda Miranda debateu os desafios da esquerda diante das fake news e destacou a importância da comunicação sindical na disputa política e social
Encerrando o ciclo de palestras da 18ª edição do Fórum Sindical Sul (FSS-2026), trabalhadores e dirigentes sindicais se reuniram no auditório da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias de Santa Catarina (FETIESC), em Itapema (SC), para acompanhar a palestra da jornalista Amanda Miranda, que abordou o tema “Como a Esquerda pode reagir, mobilizar e vencer a batalha contra as fake news?”.
Com uma fala marcada por análises sobre o funcionamento das redes sociais, o poder dos algoritmos e os desafios da comunicação política no ambiente digital, Amanda destacou a importância de o movimento sindical compreender a lógica das plataformas para disputar narrativas e fortalecer a formação política da classe trabalhadora.
“Dialogar com o movimento sindical é uma honra. Acho muito importante essa preocupação dos dirigentes de tratar a comunicação como um ativo, como um espaço de formação política”, afirmou.
A jornalista ressaltou que as redes sociais passaram a ocupar centralidade na vida das pessoas e que os algoritmos controlados pelas big techs determinam a circulação das informações. Segundo ela, compreender essa dinâmica é fundamental para enfrentar o avanço da extrema-direita e o crescimento das fake news.
“Não é mágica, é algoritmo. As redes sociais tomaram a centralidade das nossas vidas e são os algoritmos que determinam como a informação vai circular”, explicou.
Amanda chamou atenção para o fato de que as plataformas privilegiam conteúdos que geram reações emocionais intensas, indignação e polarização, favorecendo discursos extremistas.
“O que o algoritmo faz é converter as pessoas ao extremismo. As big techs estão nas mãos da extrema-direita. Na posse de Donald Trump, os grandes empresários das plataformas estavam lá, em um espaço de lobby muito explícito”, analisou.
Durante a palestra, ela também comentou os impactos políticos e sociais da recente postura do presidente norte-americano Donald Trump ao defender o enquadramento de organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas. Para Amanda, o tema representa uma “arapuca político-eleitoral” que tende a ampliar a polarização e deslocar o debate público.
“A tendência da extrema-direita será apontar quem questiona essa medida como defensor do crime organizado. Precisamos saber nos posicionar sobre isso”, alertou.
A jornalista explicou que o debate acaba funcionando como uma cortina de fumaça para desviar a atenção de outras denúncias e forçar setores progressistas a discutir temas complexos em um ambiente dominado pela desinformação e pelo discurso simplificado.
Emoção, mobilização e disputa narrativa
Ao longo da atividade, Amanda Miranda apresentou exemplos recentes de mobilizações digitais que conseguiram romper as bolhas das redes sociais e gerar impactos concretos na sociedade. Entre eles, citou a repercussão da chamada “PEC da Bandidagem” e a campanha nas redes envolvendo a hashtag #CongressoInimigoDoPovo.
Segundo ela, o sucesso dessas mobilizações aconteceu porque houve capacidade de transformar indignação em ação coletiva, extrapolando o ambiente digital.
“Sentimentos evocam ação. A repercussão só teve efeito porque extrapolou o plano digital e chegou às ruas”, observou.
Ela também citou o debate em torno do fim da escala 6×1 como um exemplo de mobilização bem-sucedida.
“Quem ganha é quem consegue transformar ativismo e militância em ação concreta. Vencer em likes e views não significa nada sem conversão de base”, afirmou.
Para Amanda, a pressão articulada entre redes sociais, mobilização popular e atuação política foi determinante para que o tema ganhasse espaço institucional.
“Aproveitem para comemorar, mas a tramitação exige intensificação da mobilização tanto nas redes quanto nas ruas”, destacou.
A lógica dos algoritmos
Durante a palestra, Amanda Miranda explicou que os algoritmos favorecem conteúdos mais agressivos, emocionais e polarizados. Ela utilizou como exemplo discussões envolvendo declarações do apresentador Luciano Huck e respostas da ex-BBB Ana Paula Renault para ilustrar como confrontos diretos geram mais engajamento do que debates mais aprofundados.
“Temos que conseguir surfar no que o algoritmo pede: reagir, ser enérgico, sem banalizar o sentimento de reação pelo deboche ou pelo ranço, mas levando informação de qualidade para as pessoas”, pontuou.
A jornalista também comparou diferentes perfis de lideranças políticas nas redes sociais, destacando como determinados discursos são impulsionados pelas plataformas digitais.
Segundo ela, figuras da direita como Nikolas Ferreira conseguem maior alcance ao utilizar linguagem popular, forte apelo religioso e referências à chamada “família tradicional brasileira”, enquanto lideranças progressistas com discursos mais acadêmicos acabam enfrentando mais dificuldades de comunicação com setores populares.
“O algoritmo vai beneficiar quem dialoga com emoções simples, diretas e populares”, analisou.
Comunicação com ética e credibilidade
Apesar das dificuldades impostas pelo ambiente digital, Amanda defendeu que o combate às fake news deve ocorrer com ética, responsabilidade e compromisso com a verdade.
“Jamais devemos combater fake news com fake news. Não podemos vencê-los usando a mesma arma”, afirmou.
Ela orientou os participantes a fortalecerem o jornalismo profissional, os veículos independentes e os conteúdos comprometidos com fatos, ciência e análise fundamentada em evidências.
“Acompanhem sempre os órgãos oficiais, consumam veículos independentes e fortaleçam o ecossistema jornalístico profissional com credibilidade técnica e ética editorial comprovada”, recomendou.
Amanda também destacou a importância de o campo progressista deixar de atuar apenas de forma reativa diante das pautas impostas pela extrema-direita.
“Quem não cria, espalha. É preciso ser originador de pautas progressistas em vez de apenas reagir às provocações diárias do adversário”, afirmou.
Ao encerrar a palestra, a jornalista defendeu que a disputa política exige convencimento, diálogo e presença concreta nos espaços sociais.
“Além das redes sociais, conversem pessoalmente, dialoguem e qualifiquem a decisão política das pessoas do seu entorno. Para vencer, é preciso estratégia de convencimento, ética e coerência”, concluiu.
A atividade encerrou oficialmente a programação de palestras do 18º Fórum Sindical Sul, que reuniu dirigentes e lideranças sindicais de diferentes estados para debater inovação sindical, comunicação, mobilização social e os desafios contemporâneos do movimento dos trabalhadores.






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