Conforme Roberto Baggio, uma vitória eleitoral das forças progressistas, em outubro, abriria um novo período para ampliar a organização popular, fortalecer a participação social e avançar na construção de políticas públicas e direitos
A Jornada Estadual de Organização Sindical e Democracia, realizada pela Federação dos Trabalhadores nas Indústrias do Estado de Santa Catarina (FETIESC), nesta quarta-feira, dia 12 de agosto, contou com a participação de Roberto Baggio, liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que apresentou uma análise sobre o cenário político e econômico internacional e os desafios colocados para os trabalhadores.
Baggio definiu o período atual como “complexo, histórico e conflitivo”, marcado por grandes decisões que poderão influenciar o futuro das próximas décadas.
Para ele, os trabalhadores estão inseridos no centro de uma grande crise e precisam compreender profundamente a realidade para poder transformá-la.
Um dos primeiros elementos destacados pelo dirigente foi a importância da liderança comunitária/sindical estar conectada à realidade concreta.
“O primeiro componente de quem exerce liderança comunitária é fazer um esforço para conhecer a realidade de onde a gente pisa e de como essa realidade se move.”
Segundo Baggio, a compreensão do momento histórico é indispensável porque a palavra e a atuação das lideranças exercem influência sobre a sociedade. O conhecimento, portanto, não deve permanecer restrito ao campo da análise, mas ser transformado em organização e ação coletiva.
“É preciso usar oconhecimento que a gente adquire para se envolver com a realidade, para que a gente possa se organizar e lutar.”
Ao analisar o sistema econômico, Baggio apresentou elementos que, em sua avaliação, estruturam o funcionamento do capitalismo, destacando a propriedade privada dos meios de produção, a centralidade do trabalho humano na geração de riqueza e a produção de mercadorias.
Na sua exposição, afirmou ainda que a exploração do trabalho e a apropriação da mais-valia são componentes fundamentais do sistema capitalista. Ele também destacou o papel do Estado na manutenção da ordem econômica e social, mencionando suas estruturas políticas, jurídicas, de segurança e repressão.
Para Baggio, porém, o Estado contemporâneo precisa ser compreendido a partir de uma dimensão mais ampla, envolvendo poder econômico, militar, jurídico e a chamada disputa de ideias. A guerra, segundo sua análise, também está relacionada à reprodução do capital e à disputa geopolítica internacional.
O dirigente avaliou que o capitalismo atravessa uma crise estrutural, que se manifesta não apenas na economia, mas também nas dimensões social, política, ambiental e cultural.
Um mundo em transformação
Outro ponto abordado foi a mudança na correlação de forças internacionais.
Baggio destacou o crescimento da China, a retomada da Rússia como potência internacional, a reorganização de países do Oriente Médio e do mundo árabe, a formação e fortalecimento dos BRICS e a emergência de governos progressistas em diferentes regiões.
Na sua avaliação, o mundo caminha para uma configuração cada vez mais multipolar, na qual os Estados Unidos deixam de exercer sozinhos a capacidade de estabelecer as regras do sistema internacional. Essa transformação, segundo ele, também produz conflitos e disputas pela influência econômica, política e estratégica sobre diferentes regiões do planeta.
O dirigente apontou ainda que a crise do modelo econômico se expressa em problemas sociais e ambientais. A busca permanente por maior rentabilidade e exploração dos recursos naturais, afirmou, aprofunda a pressão sobre o meio ambiente.
A crise também teria uma dimensão relacionada aos valores sociais, diante de uma cultura marcada pelo consumo e pela transformação das relações humanas em relações cada vez mais instrumentalizadas.
O papel do Brasil na disputa internacional
Ao abordar a realidade brasileira, Baggio resgatou aspectos históricos da formação econômica do país. Segundo ele, o Brasil carrega uma trajetória marcada por dependência econômica, concentração fundiária, produção voltada à exportação e desigualdades sociais profundas. A industrialização iniciada no século XX teria representado uma transformação importante, mas sem eliminar completamente a dependência externa.
O dirigente também fez críticas às políticas neoliberais adotadas a partir da década de 1990, associando o período a privatizações e redução da capacidade produtiva do Estado brasileiro. Na sua análise, os governos de Lula e Dilma representaram um período de avanços sociais, interrompido posteriormente por uma nova etapa política iniciada em 2016 e aprofundada durante o governo Bolsonaro.
Baggio avaliou que, desde 2023, o Brasil busca recuperar espaço econômico e político no cenário internacional e enfrenta três grandes desafios: a defesa da democracia e dos direitos sociais, a soberania nacional e a construção de uma sociedade participativa e com direitos garantidos.
Democracia, soberania e participação popular
Para Baggio, a disputa política atual que culminará nas eleições de outubro próximo não pode ser compreendida apenas como uma conjuntura eleitoral passageira.
“Esse tempo não é tempo conjuntural, é histórico. É uma crise estrutural.”
Na avaliação apresentada durante a Jornada, os trabalhadores enfrentam um cenário internacional marcado pelo crescimento de forças políticas autoritárias, pelo avanço do neoliberalismo e pela concentração de poder econômico.
O dirigente apontou ainda a disputa entre diferentes projetos de sociedade e ressaltou a necessidade de enfrentar discursos baseados no ódio, na violência e no medo.
A defesa da soberania brasileira também foi apresentada como elemento estratégico, especialmente diante das disputas geopolíticas envolvendo os Estados Unidos, China, Rússia e demais blocos internacionais.
Eleições de outubro no centro da disputa política
Ao tratar especificamente do cenário brasileiro, Baggio identificou três grandes campos políticos em disputa.
De um lado, apontou a existência de um núcleo organizado da extrema-direita, articulado em torno da família Bolsonaro e de setores da comunicação e das Forças Armadas.
Em outro campo, situou setores da burguesia liberal ligados à indústria, ao comércio, à agricultura, ao agronegócio e ao sistema financeiro.
O terceiro campo, segundo sua análise, reúne as forças progressistas e os trabalhadores em torno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Para Baggio, a tendência é de uma forte polarização entre esses projetos, fazendo das eleições de outubro um momento decisivo para os rumos do país. Diante desse cenário, defendeu que a disputa eleitoral deve ocupar posição central na agenda das organizações populares e sindicais.
“As eleições têm que ser a prioridade número um de todos, sob risco de sermos dominados pelo neofascismo.”
Segundo Baggio, uma vitória eleitoral das forças progressistas abriria um novo período para ampliar a organização popular, fortalecer a participação social e avançar na construção de políticas públicas e direitos.






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